Fevereiro, 08 2010  -  Ano 01

"A Hora da Estrela", de Clarice, em audiolivro

Esther Lucio Bittencourt

Ouço. Agora. Estou a ouvir. Neste exato momento o audiolivro que a editora Rocco lançou em edição esmerada do livro "A hora da estrela", de Clarice Lispector.

Maria Bethânia leu a dedicatória e Pedro Paulo Rangel o livro inteiro.

Falta, falta, bom que Clarice não ouviu. Mas Clarice era tão simples, tão humana, que elogiaria. Falta pique, falta , e como! na leitura. Falta dinâmica, tempo e espaço e, quando estes existem são demasiados.

Que pena! Os baixos da voz são tão, tão baixos, exangues, que pouco se ouve. Palavras e letras são engolidas impunemente.

O que fizeram com Clarice pura emoção? Silêncios, pausas demasiadas ou ausência dos mesmos. A leitura velório me atormenta. Sinto necessidade urgente de ligar palavras umas às outras nas falas. Bethânia interpreta, tropeça em Schoenberg, mas onde está a urgência que a escrita de Clarice nos provoca?

Lastimo. Comprei ansiosa e decepciono na primeira ouvida. Pedro Paulo Rangel chia demasiado nos “s” e titubeia nas palavras iniciais. Lástima. Lástima. A entonação é pobre e claudicante.

Clarice não gostaria, mesmo simples e muito humana, não gostaria. Tenho certeza. Espero que este audiolivro não comprometa a leitura de sua obra.

Falta edição e direção no audiolivro do texto "A Hora da Estrela". Por enquanto, no que ouvi até agora. Quem sabe, mais tarde, posso gostar de alguma coisa!


**Serviço**

Livro: A HORA DA ESTRELA - Edição especial com áudio-livro
Sub Titulo: Edição especial com áudio-livro
Autor: 
Clarice Lispector 
ISBN:85-325-2127-4
Páginas:120
Formato : 17x20
Preço : R$ 45,00 
Mais informações no site oficial da autora:www.claricelispector.com.br

Ganha um prêmio quem adivinhar o que é isso

Ana Laura Diniz

.

.

.

.

.

.

.

.

.

(é o sapato "mojito", criado por Julian Hackes, que vi no blog do meu querido Marcelo Coelho... que viu no site dezeen.)

 

 

Tipo assim... o inimaginável, enfim...

Ana Laura Diniz

Enfim... Marina quis acreditar no inimaginável. E se jogou de braços abertos, no escuro. Mas perdeu a noção. O chão foi duro demais. Ficou em frangalhos. Em pedaços já vive. Drama. Fazer? É assim, sacumé? Sente tudo com lupa de aumento. Para o bem e para o mal. Está mal. Mas passa. Ah, passa. Um dia. Não esquece, é pra sempre, mas passa. Tipo assim, enfim... a dor!

O segredo que mata!

Manô Garcia

Ele me chamou no canto da escola. Gelei. Pensei: “Ai, é agora”. Uma das piores cenas da vida é alguém te chamar pra contar que é gay. É tão desnecessário. E ele armou todo um cenário, toda uma trama. Disse todo sem jeito, todo sem rosto, todo medroso, que se eu não quisesse mais ser amiga dele, ahá! ele sofreria, mas entenderia. E disse do dia que trombou com um coleguinha no jardim da infância, e ele só tinha seis anos, e se apaixonou pelos cachos loiros mais lindos que vira até então. Ele lembra detalhes. “Aos seis anos, juro, eu me vi gay. E assim me vejo até hoje.”

Eu disse: - Tá, e qual a novidade?!

Ele pasmou. Só ele achava que o mundo não sabia. 

CRIANDO UM MONSTRO

Ana Manssour

Às vezes algumas pessoas conseguem traduzir nossos pensamentos em palavras tão bem colocadas que não há retoque a ser feito.
 
Por isso, reproduzo para vocês o artigo “Criando um Monstro”, postado no blog Mafalda Crescida (http://blog.mafaldacrescida.com.br/?p=260), o que me leva crer que seja de autoria da própria dona do blog.
 
Só me resta dizer: - Assino embaixo!
 
“O que pode criar um monstro? O que leva um rapaz de 22 anos a estragar a própria vida e a vida de outras duas jovens por… Nada?
 
Será que é índole? Talvez, a mídia? A influência da televisão? A situação social da violência? Traumas? Raiva contida? Deficiência social ou mental? Permissividade da sociedade? O que faz alguém achar que pode comprar armas de fogo, entrar na casa de uma família, fazer reféns, assustar e desalojar vizinhos, ocupar a polícia por mais de 100 horas e atirar em duas pessoas inocentes?
 
O rapaz deu a resposta: ‘ela não quis falar comigo’. A garota disse não, não quero mais falar com você. E o garoto, dizendo que ama, não aceitou um não. Seu desejo era mais importante.
 
Não quero ser mais um desses psicólogos de araque que infestam os programas vespertinos de televisão, que explicam tudo de maneira muito simplista e falam descontextualizadamente sobre a vida dos outros sem serem chamados. Mas ontem, enquanto não conseguia dormir pensando nesse absurdo todo, pensei que o não da menina Eloá foi o único. Faltaram muitos outros nãos nessa história toda.
 
Faltou um pai e uma mãe dizerem que a filha de 12 anos NÃO podia namorar um rapaz de 19. Faltou uma outra mãe dizer que NÃO iria sucumbir ao medo e ir lá tirar o filho do tal apartamento a puxões de orelha. Faltou outros pais dizerem que NÃO iriam atender ao pedido de um policial maluco de deixar a filha voltar para o cativeiro de onde, com sorte, já tinha escapado com vida. Faltou a polícia dizer NÃO ao próprio planejamento errôneo de mandar a garota de volta pra lá. Faltou o governo dizer NÃO ao sensacionalismo da imprensa em torno do caso, que permitiu que o tal seqüestrador conversasse e chorasse compulsivamente em todos os programas de TV que o procuraram. Simples assim. NÃO. Pelo jeito, a única que disse não nessa história foi punida com uma bala na cabeça.
 
O mundo está carente de nãos. Vejo que cada vez mais os pais e professores morrem de medo de dizer não às crianças. Mulheres ainda têm medo de dizer não aos maridos (e alguns maridos, temem dizer não às esposas). Pessoas têm medo de dizer não aos amigos. Noras que não conseguem dizer não às sogras, chefes que não dizem não aos subordinados, gente que não consegue dizer não aos próprios desejos. E assim são criados alguns monstros. Talvez alguns não cheguem a seqüestrar pessoas. Mas têm pequenos surtos quando escutam um não, seja do guarda de trânsito, do chefe, do professor, da namorada, do gerente do banco. Essas pessoas acabam crendo que abusar é normal. E é legal.
 
Os pais dizem, ‘não posso traumatizar meu filho’. E não é raro eu ver alguns tomando tapas de bebês com 1 ou 2 anos. Outros gastam o que não têm em brinquedos todos os dias e festas de aniversário faraônicas para suas crias. Sem falar nos adolescentes. Hoje em dia, é difícil ouvir alguém dizer não, você não pode bater no seu amiguinho. Não, você não vai assistir a uma novela feita para adultos. Não, você não vai fumar maconha enquanto for contra a lei. Não, você não vai passar a madrugada na rua. Não, você não vai dirigir sem carteira de habilitação. Não, você não vai beber uma cervejinha enquanto não fizer 18 anos. Não, essas pessoas não são companhias pra você. Não, hoje você não vai ganhar brinquedo ou comer salgadinho e chocolate. Não, aqui não é lugar para você ficar. Não, você não vai faltar na escola sem estar doente. Não, essa conversa não é pra você se meter. Não, com isto você não vai brincar. Não, hoje você está de castigo e não vai brincar no parque.
 
Crianças e adolescentes que crescem sem ouvir bons, justos e firmes NÃOS crescem sem saber que o mundo não é só deles. E aí, no primeiro não que a vida dá (e a vida dá muitos) surtam. Usam drogas. Compram armas. Transam sem camisinha. Batem em professores. Furam o pneu do carro do chefe. Chutam mendigos e prostitutas na rua. E daí por diante.
 
Não estou defendendo a volta da educação rígida e sem diálogo, pelo contrário. Acredito piamente que crianças e adolescentes tratados com um amor real, sem culpa, tranqüilo e livre, conseguem perfeitamente entender uma sanção do pai ou da mãe, um tapa, um castigo, um não. Intuem que o amor dos adultos pelas crianças não é só prazer - é também responsabilidade. E quem ouve uns nãos de vez em quando também aprende a dizê-los quando é preciso. Acaba aprendendo que é importante dizer não a algumas pessoas que tentam abusar de nós de diversas maneiras, com respeito e firmeza, mesmo que sejam pessoas que nos amem. O não protege, ensina e prepara.
 
Por mais que seja difícil, eu tento dizer não aos seres humanos que cruzam o meu caminho quando acredito que é hora - e tento respeitar também os nãos que recebo. Nem sempre consigo, mas tento. Acredito que é aí que está a verdadeira prova de amor. E é também aí que está a solução para a violência cada vez mais desmedida e absurda dos nossos dias.”

ALMODÓVAR E O ACARAJÉ INDÍGENA!

Dorothy Coutinho

Alguns psicanalistas tiram ilações sexuais das agressões sofridas por personagens vividos nas telas de cinema, a partir de quem os produziu.

O diretor Almodóvar, puro-sangue espanhol, ao construir os seus personagens é um deles.
 
"Tudo Sobre Minha Mãe", "Má Educação" e "Volver" foram os filmes do cineasta espanhol que eu assisti.
 
Nos filmes "Má Educação" e "Volver", o abuso sexual é abordado com muita densidade e conclusões polêmicas da comunidade psicanalítica. Almodóvar nos faz acreditar que existem os dois lados.
 
Diante da insistência de um conhecido tarado sexual que só faz amor com uma árvore de Natal enfeitada – assisti pela segunda vez "Tudo sobre minha mãe".
 
Os méritos artísticos de Almodóvar se igualam aos das antigas novelas como "Os que não devem nascer", ou "O direito de não querer ter nascido", onde um corcunda babão queria comer a mocinha durante os 3.236 capítulos.
 
"Tudo sobre a Mãe do Almodóvar que era Pai", teria maior profundidade dramática, e um lirismo levemente cômico, se a freirinha aidética, ligeiramente lésbica, que engravida de um travesti, também fosse leprosa!
 
Na tentativa de clarear a minha cachola crítica enquanto farsa, dias depois fui assistir "Vick Vaporub Barcelona" novo filme de Wood Allen. Sem explicação plausível alguns personagens aparecem e desaparecem. O pintor não pinta, o bandido - de cabelo armado dos irmãos Coen - não estrangula ninguém!
 
O português Saramago antes de ensaiar sobre a cegueira, escreveu sobre um lugar onde as pessoas paravam de morrer. Exagero e tema para mais um filme desses que nos trazem lembranças, como se fossem um cocô boiando no poluído inconsciente de todos nós!
 
E o escritor Arrabal também escreveu um livro, dizendo que Cervantes entubava! Matéria prima para Almodóvar...
 
Cinema, "casa de todos os delírios"!
 
Voltei para casa. Liguei a telinha e lá estava "A favorita e a Orgia Satânica entre Nobres e Plebeus" ou qualquer coisa assim, onde a vilã é a própria evolução de Sísifo e a Visão Camusiana da Marginalidade. Só aparece para vingar todos os deserdados urbanos, guardando suas virtudes e pecados dentro da bolsa.
 
Pensei: poderia ser enriquecedora uma parceria com Almodóvar para desenvolver uma mulher favorita...
 
Substituí a pipoca por um acarajé indígena, ao som de um tango eletrônico, dancei, cansei e recolhi-me aos aposentos!
 

GOVERNO DE MINAS PARALISA MAIS UMA VEZ EXPLORAÇÃO DE ÁGUA MINERAL

Esther Lucio Bittencourt

A água mineral Caxambu que é explorada aqui, na cidade de Caxambu,  no sul de Minas Gerais, patrimônio histórico-cultural do estado, - explorada desde 1762- era envasada e a comercializada pela subsidiária “águas minerais de minas”, criada pela Copasa, companhia de saneamento de Minas Gerais.

No dia 31 de dezembro de 2008, todos os funcionários foram demitidos e o envasamento encerrado.  A Copasa deverá ser privatizada e, para isto, foi dividida em várias empresas menores.

 

O prefeito que tomou posse no dia 1º de janeiro, Luiz Carlos Pinto, mal assumiu e encontrou, dentre muitos, mais este problema.

 

Segundo ele, "no início da semana que entra tudo deverá estar solucionado e os trabalhadores serão readmitidos. Uma nova empresa, também do governo do estado de Minas, após assinatura de contrato, reiniciará a exploração e o envasamento das águas."

 

COPASA

 

No dia 23 de dezembro de 2008, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves autorizou a Copasa a contratar prestadoras de serviço.

 

Nova lei autoriza Copasa a contratar prestadoras de serviço 
(http://www.almg.gov.br/Not/BancoDeNoticias/Not_723866.asp)
 

 

Foi sancionada e publicada no Minas Gerais desta terça-feira (23/12/08) a Lei 17.945, de 2008, que altera a Lei 6.084, de 1973, que dispõe sobre a Companhia Mineira de Águas e Esgotos (Comag). A nova norma, originada do PL 2.164/08, de autoria do governador, que tramitou este ano na Assembléia Legislativa de Minas Gerais, tem como objetivo adotar medidas de interesse público que facilitem o trabalho da Copasa no que se refere ao saneamento básico do Estado.

 

Entre as mudanças previstas, destaca-se a possibilidade de a empresa "utilizar recursos e pessoal próprios ou de terceiros". Outra mudança proposta permite que a Copasa participe minoritariamente de outras empresas com objetivos sociais semelhantes ou correlatos, mediante a aprovação de seu conselho de administração. Pelo texto na norma, a Copasa poderá contratar prestadora de serviço ou executora de obras a qual não tenha como objeto social a prestação de serviços de saneamento. A lei inclui ainda procedimentos a serem adotados pela Copasa.

 

"Considerada uma das melhores águas do mundo, é uma água gourmet por excelência, com uma capacidade natural de ampliar a sensibilidade do paladar, auxiliando na percepção dos sabores de pratos e vinhos.

 

Produzida na tradicional estância da cidade de Caxambu, na região Sul de Minas, essa água mineral é patrimônio histórico-cultural do Estado. Explorada desde 1762, é referência no mercado de águas premium.

 

A água Caxambu brota do solo de Minas, naturalmente gaseificada, depois de percorrer um longo caminho subterrâneo que dura, em média, 500 anos. Durante esse período de maturação, ela passa a adquirir propriedades terapêuticas, incorporando minerais e características físico-químicas só possíveis em uma região tão rica nesses elementos."

MAMMA MIA! QUE DECEPÇÃO...

Ana Laura Diniz

Tudo bem que o musical é embasado na obra do Abba. Tudo bem que eu não seja fã do grupo, e lembrasse de pronto somente a clássica Dancing Queen e Voulez-Vous. Mas com Meryl Streep no elenco, ignorei esta primeira parte e investi meu tempo no filme. Primeira sensação: tempo completamente perdido. Enquanto assistia, sorria pasmada com a falta de amarração de roteiro, de quebras entre os textos e as músicas e, o pior, interpretações repletas de clichês. Nem mesmo Meryl Streep escapou de apontar os dedos para baixo quando a música se referia ao chão ou à terra ou algo do gênero. Senti que faltou direção; principalmente que correspondesse ao peso da equipe, que conta também com Colin Firth, Stellan Skarsgard e o charlatão Pierce Brosnan, que mesmo dançando vestido a la brilhantina, parecia ter James Bond encarnado na pele.

Ah, decepção. E total questionamento acerca de Meryl Streep ter aceitado fazer o filme. Ela interpreta Donna, mãe de Sophie, que está prestes a se casar com Sky, seu grande amor. Frustrada por nunca ter conhecido seu pai, a garota lê o diário de sua mãe e depara com a história de três romances juvenis. Qual deles terá sido com o seu pai? Na tentativa de obter a resposta, Sophie, sem Donna imaginar, envia o seu convite de casamento a cada um deles. A partir daí, a trama está armada e segue num ritmo fantasioso e por vezes cansativo.

Sophie descobre seu verdadeiro pai? Donna fica feliz em rever os três homens que permearam o seu passado? Donna fica brava ao se dar conta da armação da filha? É preciso ver para saber. Se não gostar igualmente do enredo, poderá ao menos ter a certeza de uma fotografia - a trama tem a Grécia como cenário - e iluminação impecáveis.

 

É, eu não gostei do filme. Mas ontem resolvi assistir aos extras disponíveis, na tentativa de descobrir porque Meryl Streep aceitara participar, e fiquei com a vontade de rever para tentar encará-lo sob a óptica da atriz, que se mostra na obra absolutamente jovem, bonita e com ar brejeiro. Segundo ela, já havia visto a montagem original da peça na Broadway e nem titubeou ao ser convidada a interpretar Donna. “É um filme onde a fantasia existe e foi divertido fazê-lo”. Na última cena do filme, fica clara essa frase, mas senti falta da atriz encarnando um punch como no lendário “Lembranças de Hollywood”. Em outras poucas passagens também, tendo apenas dois momentos que é possível sentir alguma comoção. A verdade é que tinha muita Meryl Streep, muito Colin Firth e Stellan Skarsgard para pouco papel. “Mas foi divertido”, repetem os atores participantes em todo making of. Que bom! Ao menos, percebam, alguém se divertiu.

Álbum de família

Adelaide Amorim

Luís Schwarcz. Discurso sobre o capim. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. 115 p.
 
Já se disse que a memória é matéria-prima dessa obra com que Schwarcz estréia na ficção para adultos. Não porém a memória na linha proustiana, que reabre em carne viva o passado, mas um tipo de memória que registra os fatos como uma pintura figurativa, quase fotográfica. A qualidade das imagens nesses contos é nítida, desanuviada e, mesmo quando fala de lembranças dolorosas ou motivos de sofrimento, lembra um álbum de fotografias que se revêem com um misto de saudade e ternura.
 
Há espaço para o sonho, e o desejo perpassa as histórias sem mostrar sua face mundana, com um misto de pureza e certa seriedade de quem acredita no futuro, em alguma sorte, na chance de vir a ser alguém diferente, sem ansiedade ou ambição desmedida. O próprio sofrimento é discreto, sereno, de boa família. Há também uma homogeneidade narrativa que torna a vendedora de donuts, o garçom, o menino da classe média olhando o mundo de sua janela ou a camareira de hotel personagens amenas, um pouco doces até – com exceção talvez do homem do apartamento dos fundos em A quinta parede. 
 
O conto A biblioteca, especialmente bem construído, transmite de modo especial uma mensagem de ternura da filha em relação ao pai que a presenteia com sua primeira coleção de livros. A biblioteca da história seria talvez uma metáfora do amor paterno, e as diversas organizações que a moça imprime aos volumes nas prateleiras falam de seu amadurecimento pessoal e de uma visão progressivamente mais ampla do mundo a sua volta.
 
O próprio autor fala dos enfoques autobiográficos de seus contos, e são esses enfoques possivelmente os responsáveis pelo lirismo discreto que pontua vários momentos. Isso justifica também a suave sensação de ter terminado de ver um álbum de família que o livro nos deixa.

Histórias em um bar

Lilian Zaremba

Muitas histórias começam em um bar. Essa também.

Na virada do século 19 para o 20, no sudeste dos Estados Unidos, os trabalhadores corriam para os “honky tonks”, em busca de bebida, música e até daquelas moças conhecidas, digamos, por sua ... “vida fácil”...
 
Honky tonk, honkatonk, ou apenas tonks, tunks ... era como se chamavam esses bares.
 
A palavra “honk” muito utilizada por volta de 1890 ninguém afirma exatamente o que significa: alguns acreditam ser uma gíria para indicar alguém “de papo prô ar, sem fazer nada, desperdiçando tempo”... talvez e não exatamente por opção, afinal nessa fase começou a grande Depressão econômica na América e o desemprego...
 
Mas o tempo se encarregou de oferecer outros sentidos para o “honky tonk”, e atualmente esta expressão pode significar muitas coisas, até mesmo um certo tipo de garota esperta, como cantaram os Rolling Stones em sua música “Honky Tonk Woman”.
 
Honky tonk música se espalhou rapidamente pelo Texas no auge da corrida por petróleo, naquele movimento aonde os homens lutavam para ganhar muito dinheiro e depois... torravam tudo com diversão.
 
Mas vamos abandonar um pouco os detalhes desta terminologia, esse comportamento, nomes e origem, ouvindo o que interessa: Joe “Fingers” Carr é o pianista naquele bar honky tonk tocando “Maple Leafg”, música de Scott Joplin ...
 
Scott
 
Scott Joplin viveu entre 1868 e 1917, sendo compositor e pianista associado ao “ragtime” .
 
Joplin popularizou o “classic rag”, estilo de tocar piano e compor, uma das raízes do jazz, genero escrito como dança, alcançando grande popularidade entre 1900 e 1918, e também presente nos bares honky tonk.
 
O ragtime teria sobrevida à partir do sucesso do filme “The Sting”, realizado pelo diretor Milos Forman em 1981, apresentando o ator Robert Redford em grande forma.
 
Os cariocas do Trio Madeira Brasil gravaram um arranjo de José Paulo Becker para violões e bandolim deste “The Easy Winners”, composição de Scott Joplin.
 
Mas naqueles salões dos bares honky tonk não se ouvia apenas ragtime. Músicas de peças da Broadway, teatros como o Liberty e filmes estavam no repertório dos pianistas, como “I wonder who’s kissing her now”, canção que dá título ao filme realizado em 1947 pelo diretor Lloyd Bacon; e “ Who’s sorry now ?”, do musical “Three little words” estrelado por Fred Astaire em 1950.
 
O espetáculo “Blackbirds of 1928”, marcava o ambiente da Depressão nos versos da canção que dizia: “não tenho nada para lhe dar a não ser amor”... “I can’t give you anything but love” ...
 
Versos de Dorothy Fields, letrista que escreveria mais de 400 canções de sucesso para espetáculos da Broadway ou filmes de Hollywood.
 
“I can’t give you anything but love” já mereceu inúmeras gravações, entre elas, por Louis Armstrong e Lena Horne. Lembramos também aquela realizada por Cliff Edwars, no mesmo ano de 1928 quando foi lançada.
 
do Honk ao Boogie
 
Assim como o nome “honky tonk”, este outro , “boogie woogie” também possui origem desconhecida ... a história é um tanto confusa até porque ... boogie woogie costuma ser chamado de “música honky tonk”!
 
Muitos apontam o pianista texano George W. Thomas como a grande referência inicial deste estilo, por volta de 1910 . Mas seria Pinetop Smith, e Meade Lux Lewis, os primeiros sucessos comerciais. Lewis lançaria um disco com título de “Honky Tonk Train Blues”, em 1927.  
 
O disco “Pinetop’s Boogie Woogie” lançado por Pinetop Smith em 1928 marcaria outro ponto na escalada do sucesso comercial nos primórdios da História deste estilo.
 
Aliás, dizem que o nome “boogie woogie” se tornou conhecido após aparecer neste disco de Smith, e passou a identificar este estilo de tocar piano. De qualquer forma, Smith também ajudou a embaralhar tudo quando lançou “Honky tonk train Blues”... ou seja, no fim, tudo se reporta às origens do jazz.
 
Pinetop Smith, pianista e compositor de clubes e vaudevilles, viveu entre 1904 e 1929.
 
Sua música “boogie woogie” costuma ser apontada como o registro deste nome para rotular o estilo musical desenvolvido por pianistas. Tommy Dorsey gravou.
 
Depois que o boogie woogie ganhou o palco ilustre do Carnegie Hall, naquele concerto em 1938, as portas estavam definitivamente abertas.
 
No espetáculo, os pianistas Albert Ammons, Pete Johnson e Lux Lewis apontavam não apenas os próximos anos de sucesso mas a influência abrangente deste estilo: do swing ao rock, muitas seriam as inspirações boogie.
 
Sidney Bechet, Earl Hines e Bob Zurke, cairam no boogie liderando suas orquestras.
 
 
Clint, a honky tonk man
 
 
Como diria Lavoisier, nada se perde, tudo se transforma ... aconteceu com o Honky Tonk.
Fusão de generos que inclui não apenas os estilos antecedentes do jazz mas também a música “country”, atualmente a música chamada de “honky tonk” pode ser ouvida em diferentes trabalhos, como por exemplo o da cantora Lucinda Williams.
 
Na verdade, a música Honky Tonk sempre esteve associada aos cowboys, e não é surpresa saber que o ícone cinematográfico deles dirigiu e estrelou em 1982 um filme chamado “Honky Tonk Man”. É claro, estamos falando de Clint Eastwood.
 
O estilo honky tonk também estaria refletido no rock, e para lembrar algum exemplo seminal aí vai “jambalaya”, música composta por Hank Willians e gravada pela pequena Brenda Lee, em 1956 ...
 
Outra lembrança dos primórdios, desta vez associada ao boogie: Django Reinhardt, em 1940, gravou o Boogie Woogie de Pinetop Smith.
 
A história é infindável.
 
Discorrer sobre origem de nomes e estilos na história do jazz é tão complexo quanto fantástico. Sem dúvida, um tesouro.
 

Um tesouro de riqueza inesgotável porque cada pedra preciosa resulta em incontáveis dilapidações. John Lee Hooker é uma dessas pepitas mais recentes, a reinventar o Honky Tonk e o Boogie.

Procura-se o olhar de Anne Bancroft

Ana Laura Diniz

Muitos perguntam o porquê desta seção chamar 84, Charing Cross. Resposta fácil apenas para os que lembram do filme, interpretado por Anne Bancroft e Antony Hopkins.
 
No Brasil, a obra recebeu o nome de “Nunca te vi, sempre te amei”, no qual Bancroft e Antony Hopkins interpretam o cultuado 84 Charing Cross Road, de David Jones (Inglaterra, 1986).

A história trata do romance platônico de um homem e de uma mulher que passaram anos trocando cartas sem nunca se encontrar pessoalmente. Ela, Helene Hanff, uma escritora americana, vivia em Nova Iorque. Ele, Frank P. Doel, o gerente de uma livraria especializada em edições esgotadas, em Londres. Tudo começou pelo fato de Helene adorar livros raros, os quais eram difíceis de encontrar nas livrarias nova-iorquinas. Para adquirir uma destas preciosidades literárias, Helene escreveu uma carta para a pequena Bookstore de Doel, conhecida por negociar livros de segunda mão. Esta primeira correspondência para Frank deu início a uma troca de palavras afetuosas, irônicas e repleta de humor, que nem imaginariam perdurar por mais de duas décadas, só terminando com a morte do livreiro londrino.
 
Helene que não conseguiu encontrá-lo em vida, foi a Londres depois de sua morte. O olhar que ela tece sobre a cidade, as suas cores, as suas curvas, a sua arte em todos os detalhes, é o que desejamos neste espaço. Olhos para enxergar, não apenas para ver. Olhos sedentos por informações, detalhes, caracterização de ruas, lugares, imaginativos ou não. A Londres da imaginação de Helene batia com a Londres real? O cheiro, a cor, o jeito da cidade. Londres nesse sentido é Minas, São Paulo, Rio, Suíça, Jamaica, Porto Alegre, Amsterdã, Pindamonhangaba. É qualquer lugar que se tem e se queira ter.
 
84, Charing Cross é o teu lar.

Uma esmola pelo amor de Deus

Ana Laura Diniz

A porta do metrô fechou e uma mulher gritou por qualquer centavo ou real. O rapaz que sentava perto falou impaciente: "pô, é o terceiro dia seguido que essa mulher entra pra pedir dinheiro". Gabriel Carvalho Simões, 19 anos, estuda num famoso cursinho de São Paulo e sonha em ser advogado. "Não é para ser rico. É que ainda acredito no futuro do País”. Soltou a frase com olhar de reprovação para a mulher, que repetia incessantemente a mesma fala. “Você viu? Se ela tiver 35 anos, é muito. Pô, vai trabalhar! Pedir dinheiro é muito fácil. Vai arar uma terra, colher feijão, fazer uma faxina, sei lá”, completou.

Gabriel então contou que a sua família tem um sítio pelas bandas de Monteiro Lobato, no interior paulista, e que o terreno faz divisa com um dos caras que há cinco anos era o mais pobre da região, o Joca. "Ele saía nas ruas pedindo dinheiro igual a essa mulher, mas sem sucesso, e com dois filhos pra criar, começou a catar papel nas ruas. Logo percebeu que as pets e as latas de cerveja e de refrigerante revertiam até em mais dinheiro. Pô, o cara não apenas deu a volta por cima como agora muitos o chamam de empresário". Profissão: catador.

Não acredita? “Joca, que antes puxava uma carroça caindo aos pedaços, tem agora oito – puxadas por cavalo. E o que fez? Conseguiu o itinenário do caminhão de lixo na Prefeitura, e diariamente, antes que ele passe, seleciona o que lhe interessa. Algumas famílias até ajudam já selecionando o que serve pra ele. Então, quando vejo essas cenas, fico pau da vida. Não me venham dizer que não tem jeito, porque tem. Meu pai mesmo já perdeu tudo o que tinha, e se reergueu. Temos uma vida simples, mas se alguns podem vencer no trabalho, por quê outros não?"
 
Pergunta suspensa no ar.
 
Moreno, cabelo bem aparado, certo suor na face. As mãos não apresentavam calos, mas sua expressão séria denunciava uma certa batalha pela sobrevivência.
 
E Gabriel falou do tempo, do inverno, da manhã de garoa fina. De gente que faz corpo mole, que lava carro, que vende bala no farol sob o aviso: "calma, isso não é um assalto". De gente que vende o corpo, mas não entrega a alma.
 
“Eu acordo cedo todos os dias para ajudar a mãe nos afazeres da casa porque depois tenho que trabalhar e estudar”. É office-boy de uma pequena empresa têxtil. Seus olhos negavam a sua pouca idade. E a cada ponto negativo que dizia, repetia: "entende porque é preciso mudar? A gente precisa acreditar... o País tem jeito!"

Desci três estações antes de Gabriel, que permaneceu no vagão junto a uma mulher em silêncio. A mesma que aclamava minutos antes por "uma esmola pelo amor de Deus”.

Podcast

Publicidade

Blogs Parceiros